Não podemos continuar a viver num mundo em que a Barbie é perfeita mas eu não sou

Não podemos continuar a viver num mundo em que a Barbie é perfeita mas eu não sou

Nasci uma criança “normal”, segundo os parâmetros da sociedade moderna, tanto em relação ao peso como à vida familiar. Mas ao longo do tempo, quanto mais o tempo passava, com ele ganhava peso e a cada dia que passava mais pesada ficava.

Na escola primária, a minha “querida” professora, a pessoa que mais confiava na época e que por momentos até pensava em ser como ela, como todas as crianças, além de me chamar de burra, também me chamava de gorda e em frente a todos os meus então. Sei que entre as duas “alcunhas” que me chamava, adjetivos vá, foi mais fácil lidar com o facto de ser gorda do que o ser chamada de burra. Com o tempo veio a confirmar-se que eu não era burra, mas tinha dislexia!

Mas estas duas palavras foram as duas críticas que me fizeram sempre sentir tão inferior, minimizada!

Na minha cabeça, se eu era gorda, não poderia ser bonita e muito menos ser bem sucedida, porque também …era burra! Essa ideia de que só os magros eram bonitos e bem-sucedidos, era a imagem que me “vendiam”: na escola, na rua, na televisão, nas revistas… E que passou a ser uma verdade absoluta.

Era o que estava à altura dos meus olhos! Em nenhum momento da minha infância ou adolescência, vi mulheres ditas gordas em destaque, e as que via, por exemplo, eram postas como empregadas ou vendedoras ambulantes nas telenovelas. Não que fosse ou seja uma vergonha, mas diante do conceito que me punham na escola e na sociedade, que o ser bem sucedido era ser líder, patroa, ganhar dinheiro, desfilar em grandes passerelles, não…não me lembro de ver uma mulher gorda em destaque!

Já em fase adulta percebi que não sabia lidar com a aquela tentativa de crença imposta de que era burra e portanto, fugia disso focando-me “apenas” que o meu único problema era em ser gorda. E como acabar com isso? Só perdendo peso…O que fiz com todo o custo e esforço possível.

Todas as dietas que possam imaginar eu fiz. Tudo o que havia sobre, eu lia ou “alimentava me” disso, ao ponto de começar a vomitar tudo o que eu comia. Deixei de comer… Dias! Alimentava a raiva do meu corpo sempre que se falava em comer, ao ponto do o ter cortado várias vezes…

Mas estas opções não eram nem poderiam ser consistentes, porque estas restrições levavam a períodos longos de compulsão alimentar.

COMPULSÃO! Parecia que eu não tinha fundo. Sinceramente não sei para onde ia tanta comida. Hoje olho e questiono onde cabia tanta comida!

Por mais engraçado que pareça, e pensando nisso agora, sempre tive casos e relacionamentos amorosos. Mas aconteciam nas alturas em que estava menos gorda e quando sentia que estava a ser admirada, mas se eram relações saudáveis ou equilibradas? A verdade é que muitas, a maior parte delas, não o eram, porque simplesmente não acreditava que podia haver alguém no mundo que pudesse gostar de mim. A minha falta de autoestima e confiança andavam de mãos dadas!

E esta questão como a sexualidade dariam páginas de grandes histórias, pois são temas íntimos que muitas mulheres nem sequer querem pensar!

O que me alimentava unicamente era se tinha o ego lá em cima e para isso precisava de estar magra. Precisava a qualquer custo ouvir que estava mais bonita e isso só acontecia quando estava magra aos olhos dos outros. Era música para os meus ouvidos e estimulava-me a ficar mais uns dias sem comer para conseguir manter o peso.

Os anos foram passando e uma das piores alturas da minha compulsão alimentar foi a fase da descoberta da infertilidade e o que levou a tratamentos. Estava eu com o peso perto dos 130 Kgs. O próprio tratamento a que me comprometi a fazer para tentar engravidar, faz com que o corpo mude e promiscuamente nada melhor que ter essa desculpa para comer como conforto. Arranjar sempre uma forma de me poder consolar com os alimentos sem ouvir o outro comentar era a minha meta diária. Para minha frustração, nunca houve um tratamento que resultasse em positivo.

E agora? Mais uma necessidade e consequente desculpa para me  reconfortar a tristeza com comida! Não bastando, pouco tempo depois surge mais um problema

que me leva a uma cirurgia uterina, a embulização do útero, devido a uns miomas considerado muito grandes e que causavam perdas de sangue e que me levavam a uma fraqueza extrema. O que eu fiz com isso? Mais uma desculpa para poder comer supostamente sem culpa. Não era a minha culpa, mas a crítica no olhar dos outros.

Anos e anos foram estas as desculpas que literalmente alimentavam a minha doença, doença esta que não se vê, mas que se sente!

Até ao dia que decidi fazer a cirurgia ao estômago… Mas por três vezes fugi! Nesse processo há a necessidade pelo de haver acompanhamento psicológico e que até hoje

o faço. E foi nesta descoberta que eu desisti da operação, mas não desisti de mim!

O problema não estava no que comia , mas nas desculpas e nos gatilhos que eu arranjava para o fazer, mesmo a viver num corpo que não sentia meu, do qual tinha extrema vergonha e que cheguei mesmo a repugnar. A fugir da socialização, porque ir jantar e não poder comer era algo que teria

que existir , pois não sabia o que era o equilíbrio.

Não foi uma dieta que me salvou. Foi uma mudança de comportamentos e de pensamentos! Foi optar por novos hábitos mentais e físicos. Compromisso, determinação, foco, disciplina e mais do que tudo, consistência.

Amor próprio, aceitação …

Não foi à primeira que tudo aconteceu para hoje estar com 68/69quilos.

Foi e é um percurso imenso e diário!

Com isto tudo e por ter estudado muito sobre mim, sobre os sentimentos, sobre os gatilhos, sobre a compulsão alimentar e emocional, certifiquei me em Coaching com especialização em distúrbios alimentares e comportamentos compulsivos !

O que mais prazer me dá é os grupos de auto ajuda onde o AUTOCUIDADO é rei!

É maravilhoso trabalhar técnicas que levam as coachees a tomarem consciência da força e determinação que têm. Do corpo em que vivem. Das vontades que têm e quais são reais e quais são apenas ilusões para o corpo delas poder sobreviver. Compromisso é a palavra chave nestes grupos. Compromisso com a vida e com o corpo humano que é a nossa casa. Aceitar o corpo sabendo que o podemos melhorar em amor.

Com a pressão social a aumentar diariamente, por mais que algumas minorias comecem a aparecer para fazerem-se ouvir e batendo o pé de que qualquer corpo é bonito, tudo isto continua a acontecer. Quanto mais se fala de aceitação, mais cuidado temos que ter, pois para uns é bem visto, para outros é promover o excesso de peso. A luta é mostrar onde está o limite do bom senso, da saúde e de conseguir mostrar que cada corpo é individual e que o que eu preciso não é necessariamente aquilo que tu precisas. Nós podemos ser perfeitos dentro da imperfeição! E quando digo imperfeição é apenas porque essa palavra existe no dicionário e foi atribuída também ao corpo humano e temos que a incluir no nosso vocabulário, porque para uma pessoa com as fragilidades que pessoas como eu têm ou tiveram, não podem sequer pensar que são imperfeitas, pois esse será um dos maiores gatilhos para a frustração.

Afinal o que é ser perfeito?

O que é ser imperfeito?

O mesmo se questiona quando não se é mãe, somos menos mulheres?

Aceitarmo-nos como somos não deveria ser uma provação para o exterior. Ter autocuidado e saber ouvir o nosso corpo é o que mais importa nesta vida, pois ele diariamente nos dá sinais se está tudo bem ou nem por isso. O nosso corpo é a nossa casa. É onde vamos morar até partirmos. Devemos nós ter vergonha da nossa casa? Não é na nossa casa que nos deveríamos sentir mais seguros? Devemos encontrar o equilíbrio e foi isso que me baralhou durante muito e muito tempo! Voltando à minha história, sempre que controlava a comida, sempre que me encontrava esforçadamente a fazer uma dieta restrita (porque só assim via resultados e acreditava estar certa),

achava eu que estava em equilíbrio. Mas esse tal de equilíbrio em que supostamente “me encontrava” só me levava a um desequilíbrio maior e quase que total, porque não era saudável, estava a magoar o meu corpo, estava a coloca-lo em sofrimento e quando me olhava ao espelho, a dor que era viver num corpo que não era meu! Mas hoje percebo que é tudo uma questão de consciência!

 O peso é uma consequência de como vivemos, de como nos alimentamos, de como trabalhamos, de como nos relacionamos connosco e com os outros sem nunca esquecer que somos seres completos, muita mais do que peso.

Hoje a alimentação é minha aliada e se alguma vez pensei em chegar a este ponto? Jamais. O importante é desenvolver uma relação saudável connosco e com o nosso corpo e  a com alimentação que fazemos. Só assim iremos chegar ao equilíbrio saudável entre corpo e cabeça e que é o sentimento mais libertador que nós, que lutamos anos contra a compulsão alimentar, ou outro distúrbio alimentar,podemos alcançar.

Para finalizar, e como sempre disse e acredito, o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo sente e guarda as nossas tristezas, as nossas angústias e as nossas ansiedades, depois de todos os processos pelos quais passei, fiz este ano uma cirurgia oncológica ao peito. O meu primeiro passo foi pedir ajuda na área nutricional, no antes, no após e durante tratamento, a alimentação é minha aliada!

E mais Sabia que se não o fizesse, poderia ser o gatilho para voltar à compulsão, à adição alimentar. Sim, comer é um vício e talvez o mais difícil de controlar, já que a comida é um produto legal, está em todo o lado, à vista de todos. Não podemos viver sem comida, portanto ter um deslize é muito fácil.

Nós realmente somos o que comemos. Tratar a alimentação como inimiga não é o caminho! Temos que compreendê-la. Temos que nos compreender.

Há que pensar leve! Os pensamentos geram emoções e estas emoções são as que nos levam aos comportamentos. Há que haver mais compaixão por nós e entre nós!

Nem todos os dias são fáceis. Não é uma regra matemática. Não há limites impostos. Dá trabalho, por vezes é frustrante e muitas vezes é difícil? Quase todos os dias. Os resultados não e nunca serão instantâneos, mas consegue-se e eu sou prova disso e quero muito passar a minha mensagem, a minha esperança e o meu conhecimento. O corpo é o produto que mais vende capas de revista, marcas de roupa, marcas de creme e livros sobre dietas. Não podemos continuar a viver num mundo em que a Barbie é perfeita mas eu não sou. Eu também sou. Tu também és. Somos todos perfeitos porque estamos vivos e somos saudáveis.



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